A Vinificação na Península de Setúbal Há 100 Anos: Uma Tradição Enraizada na Terra

Pêgo da Moura

Hoje, a Península de Setúbal é reconhecida como uma das regiões vinícolas mais distintas de Portugal, celebrada pelos seus diversos terroirs, castas autóctones e património vitivinícola secular. No entanto, os vinhos que apreciamos hoje são o resultado de gerações de viticultores e enólogos cujo trabalho, conhecimento e resiliência moldaram a região muito antes de a tecnologia moderna chegar às vinhas ou às adegas.

Há um século, a viticultura na Península de Setúbal era uma atividade muito diferente — profundamente ligada aos ritmos da natureza, ao trabalho manual e às tradições locais transmitidas de geração em geração.

 

Uma Paisagem de Vinhas

Nas primeiras décadas do século XX, a viticultura já era uma parte central da vida em toda a Península de Setúbal. Dos solos arenosos de Palmela às zonas calcárias e argilosas que rodeiam Azeitão e às zonas costeiras influenciadas pelo Atlântico, as vinhas constituíam um elemento importante tanto da paisagem como da economia local.

A maioria dos vinhedos eram pequenas propriedades familiares. O vinho não era apenas um produto comercial; fazia parte do cotidiano. As famílias cultivavam vinhas ao lado de oliveiras, pomares, cereais e criavam gado, gerando sistemas agrícolas diversificados que forneciam tanto alimento quanto renda.

O trabalho no vinhedo era frequentemente feito inteiramente à mão, exigindo um esforço considerável ao longo do ano. A poda, o manejo do solo, a colheita e a seleção das uvas dependiam da habilidade e experiência humanas, e não de máquinas.

 

Variedades Autóctones e Identidade Local

Muito antes de as variedades de uva globais se tornarem populares, os vinhedos da região eram dominados por variedades portuguesas locais, adaptadas ao clima e aos solos da península.

Entre as uvas tintas, a Castelão — conhecida localmente há gerações — já era uma das variedades que definiam a região. Sua capacidade de prosperar em solos arenosos e resistir a condições de seca a tornava particularmente valiosa para os viticultores.

Variedades brancas como Fernão Pires, Arinto e Moscatel também desempenharam papéis importantes, contribuindo tanto para os vinhos do dia a dia quanto para os vinhos fortificados que, eventualmente, trariam reconhecimento internacional à região.

Diferentemente de hoje, a seleção de vinhas era frequentemente baseada no conhecimento prático acumulado ao longo de décadas, em vez de estudos científicos. Os viticultores plantavam as variedades que haviam se provado eficazes por meio da experiência e da observação.

 

Colheita: Um Esforço Comunitário

A colheita da uva era um dos momentos mais importantes do ano agrícola.

Realizada no final do verão e início do outono, a vindima reunia famílias inteiras e, frequentemente, comunidades vizinhas. Homens, mulheres e crianças participavam da colheita das uvas, muitas vezes começando antes do nascer do sol para evitar as horas mais quentes do dia.

A colheita era um trabalho árduo, mas também uma ocasião social. Refeições eram compartilhadas no vinhedo, canções acompanhavam o trabalho e a conclusão da colheita era frequentemente marcada por celebrações locais.

O espírito de cooperação que caracterizava essas colheitas tornou-se parte integrante da cultura vinícola da região.

 

Métodos Tradicionais de Vinificação

Após a colheita, as uvas eram transportadas para as vinícolas em carroças puxadas por animais ou carregadas em cestos e recipientes de madeira.

As técnicas de vinificação eram simples para os padrões modernos, mas eficazes. As uvas eram frequentemente esmagadas em lagares de pedra tradicionais, às vezes com os pés, um método que permitia uma extração suave, preservando a qualidade da fruta.

A fermentação ocorria em grandes tonéis de madeira, tanques de pedra ou recipientes de barro, dependendo das tradições locais e dos recursos disponíveis.

Não existiam tecnologias de controle de temperatura. Os viticultores confiavam na experiência, na observação e nas condições naturais da adega para guiar o processo de fermentação.

Os vinhos resultantes eram frequentemente menos uniformes do que os vinhos de hoje, com cada safra refletindo as condições climáticas e os desafios específicos do ano.

 

A Ascensão da Vinificação Cooperativa

O início do século XX também foi um período de mudanças.

Desafios econômicos, flutuações de mercado e a necessidade de maior estabilidade incentivaram os viticultores a colaborar. Nas décadas seguintes, as vinícolas cooperativas se tornariam cada vez mais importantes em toda a Península de Setúbal, permitindo que pequenos produtores reunissem recursos, melhorassem os padrões de produção e acessassem mercados maiores.

Essas cooperativas desempenharam um papel significativo na preservação das variedades de uva locais e na manutenção da viticultura como pilar da economia da região.

 

A Influência do Moscatel de Setúbal

Mesmo há 100 anos, a região já estava intimamente associada ao Moscatel.

Produzidos a partir da uva Moscatel de Alexandria, estes vinhos fortificados conquistaram uma reputação que ultrapassou em muito as fronteiras de Portugal. A sua intensidade aromática, riqueza e potencial de envelhecimento tornaram-nos muito procurados nos mercados internacionais.

Muitas das técnicas de produção tradicionais desenvolvidas durante este período continuam a influenciar a produção de Moscatel atualmente, ligando as garrafas modernas a uma longa e distinta história.

 

Um Século de Evolução

Muita coisa mudou ao longo dos últimos cem anos.

A viticultura moderna beneficia-se da pesquisa científica, do manejo avançado dos vinhedos, da vinificação de precisão e de uma compreensão mais profunda do terroir. Os padrões de qualidade melhoraram drasticamente e os vinhos da região agora chegam aos consumidores em todo o mundo.

No entanto, apesar desses avanços, muitos dos valores que definiram a produção de vinhos na Península de Setúbal há um século permanecem inalterados.

Respeito pela terra. Compromisso com a qualidade. Orgulho das castas locais. Uma profunda conexão entre as pessoas e o lugar.

Esses princípios continuam a guiar os produtores da região e ajudam a preservar a identidade que torna os vinhos de Setúbal únicos.

 

Honrando o Passado, Olhando para o Futuro

Na Pêgo da Moura, reconhecemos que cada garrafa de vinho faz parte de uma história que começou muito antes de nós.

Os vinhedos da Península de Setúbal são cultivados há gerações por pessoas que compreendiam o valor da paciência, do trabalho árduo e do respeito pela natureza. Seu conhecimento lançou as bases sobre as quais os vinhos de hoje são construídos.

Ao abraçar tanto a tradição quanto a inovação, buscamos honrar esse legado, contribuindo simultaneamente para o futuro de uma das regiões vinícolas mais notáveis ​​de Portugal.

Os vinhos podem ter evoluído, mas o espírito da Península de Setúbal permanece o mesmo — um espírito enraizado na terra, moldado pela história e transmitido a cada colheita.